Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte

Considerada uma das mais antigas irmandades do país, a Irmandade da Boa Morte é símbolo de fé, devoção e resistência. Fundada ainda no século XIX, sua história começa em Salvador, nas proximidades da Barroquinha, mas, foi em Cachoeira que fincou suas raízes. Sua sede atual, inaugurada em 1995, fica localizada na Rua 13 de Maio, bem no centro de Cachoeira. A Irmandade segue firme até os dias de hoje mantendo suas tradições e servindo de referência para movimentos ativistas de mulheres negras.

Histórico:

 

Apesar de existir certa escassez de documentos sobre a sua fundação, pesquisas apontam que a Irmandade surgiu por volta de 1820 nas imediações da Barroquinha. Mas, por conta da política higienista e de urbanização, que através do discurso e prática racistas varria a população negra para os morros e regiões mais afastadas de Salvador, além da proibição dos cultos africanos, as irmãs da Boa Morte mudaram-se para Cachoeira por volta de 1850, onde se estabeleceram permanentemente. A época foi considerada propícia, já que a Vila de Cachoeira vivia um período de efervescência da economia açucareira.

 

De acordo com o pesquisador Armando de Castro, a irmandade fixou-se numa residência na atual Rua Ana Nery nº 41, que mais tarde ficou conhecida como Casa Estrela. Não é difícil entender o porquê: em frente à porta de entrada há uma estrela desenhada em granito na calçada. Algumas versões apontam que a estrela foi colocada ali para representar o estabelecimento da irmandade. Outros, porém, defendem que a estrela já estava ali antes da chegada das irmãs, quando ainda era habitada pelos primeiros donos da Padaria Estrela, localizada próximo à casa. Além de ser a sede da irmandade, a Casa Estrela também funcionava como um terreiro disseminador das práticas do Candomblé pelo Recôncavo. Foi lá que foram iniciadas as primeiras filhas de santo do terreiro Zoogodô Bogum Malê Seja Undê (Roça do Ventura).

 

Não há muitas informações sobre as mulheres fundadoras da irmandade. Segundo João José Reis, “há informações no sentido de as primeiras irmãs terem sido africanas alforriadas – predominância da nação Ketu, que detinham relativa condição financeira e, por tal, logo foram apelidadas de negras do partido alto”. Além de preservarem o culto às religiões de matriz africana, embora com uma forte relação de sincretismo religioso com o catolicismo, as integrantes também eram responsáveis pela compra de cartas de alforria de homens e mulheres negros(as) escravizados(as). Tudo isso somado fez com que sofressem muita perseguição tanto do clero quanto do governo.

 

Desde a fundação da irmandade, foram estabelecidas regras para participação. Era preciso que a integrantes tivessem idade superior a 40 anos, além, é claro de serem candomblecistas. Outro fator observado era a existência de laços de parentesco com uma irmã mais antiga. Atualmente, esse último requisito não é mais levado em conta. Dentro da sua organização, a hierarquia é bastante respeitada. São as irmãs mais velhas que detém o conhecimento dos segredos da irmandade, além de serem as responsáveis por repassá-los às iniciadas. Existem os seguintes cargos: irmãs, tesoureira, provedora, procuradora-geral, escrivã e juíza perpétua, todos eles decididos em uma eleição que acontece anualmente no mês de setembro. Há ainda as irmãs de bolsa, aquelas que estão em fase de observação e que têm a função de ajudar as outras irmãs em suas atribuições.

 

Durante muitos anos, as irmãs arcavam com as despesas para a manutenção da irmandade e realização dos festejos por conta própria, sem ajuda dos poderes públicos. O pequeno número de integrantes fazia com que enfrentassem muitas dificuldades. Nas décadas de 1960 e 1970, por exemplo, elas atravessaram o pior período de crise, e quase tiveram que fechar as portas da irmandade para sempre. Em 18 de janeiro de 1971, porém, quando Cachoeira tornou-se Monumento Nacional, a Irmandade da Boa Morte passou a ter o auxílio necessário para a sua revitalização.

 

O momento de maior prestígio e visibilidade da Irmandade acontece no mês de agosto, com a Festa de Nossa Senhora da Boa Morte. Sempre entre os dias 13 e 17 de agosto, as celebrações atraem visitantes de diversas partes do mundo. No primeiro dia, as irmãs vestem-se de branco e saem em procissão carregando a imagem postada sobre um andor rumo a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário. No dia 14, com a imagem de Nossa Senhora da Boa Morte, as irmãs saem da sede da Irmandade em procissão noturna, carregando velas, entoando cânticos proferidos durante o percurso fazendo menção à dormição de Nossa Senhora. O dia 15 de agosto é dedicado a Nossa Senhora da Glória, quando comemoram a “Ascensão de Maria”. A procissão sai pela manhã da sede da Irmandade, seguida pelas filarmônicas locais. Levam flores, carregam o andor de Nossa Senhora da Glória até a Igreja Matriz, onde uma missa é celebrada. O dia também é reservado para a transferência dos cargos, com posse da nova comissão de festa. A festa vai até o dia 17, com apresentação de grupos de samba de roda e distribuição de comida farta para todo o público.

 

 

 

Referência:

 

CASTRO, A. A. C. A irmandade da Boa Morte: Memória, intervenção e turistização da festa em Cachoeira-BA. 2005. 182 f. Dissertação (Mestrado em Cultura & Turismo) – Parceria UESC/UFBA, Ilhéus, 2005.

Leia também: http://www.uesc.br/cursos/pos_graduacao/mestrado/turismo/dissertacao/dissertacao_armando_costa.pdf

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