Terreiro Ilê Axé Icimimó Aganju Didé

Situado na Terra Vermelha, distante aproximadamente 6 km do centro de Cachoeira, o Terreiro Ici Mimó, ou Aganju Didê (que na língua Nagô significa “Xangô de pé”) pertence à Nação Nagô tedô, considerada como o “Nagô puro”, já que preserva ainda  a prática da raspagem de cabeça e não cultua os caboclos. Seu calendário de festas vai de julho a dezembro, quando são homenageadas as divindades: Olunda, Obaluaê (Wabê), o culto de Baba Egum, Ibeje, Iansã e Xangô. É um dos terreiros mais antigos da cidade, com sua história datada a mais de 100 anos.

Histórico:

 

A “Casa Forte que só pratica o bem” foi fundada por Judith Ferreira do Sacramento, que adquiriu as terras onde hoje está o terreiro em 1913, da Companhia União Fabril da Bahia pela quantia de 600$000 (seiscentos mil réis). De acordo com um relato do Babalorixá Antônio dos Santos Silva, conhecido como Pai Duda, Judith era filha de santo de João da Lama, pai de santo que tinha um terreiro em São Gonçalo dos Campos. O pai de santo foi avisado pelo seu Xangô de que ela chegaria num navio negreiro e deveria ser resgatada.

 

Assim que chegou, Judith começou a fazer ações de caridade às pessoas que iam ao terreiro em busca de auxílio, e sua fama percorreu toda a região. Certo tempo depois, o Xangô incorporado em Judith entrou no quarto do santo, pegou o assentamento e saiu do Terreiro da Lama e disse que aqueles que quisessem, que o seguissem. Foi após esse momento que Judith comprou as terras onde hoje estão o Ici Mimó.

 

Mas o estabelecimento do terreiro enfrentou muitas dificuldades. A maior delas foi a perseguição dos poderes locais e a especulação imobiliária, que a fez perder boa parte do terreno. Mesmo assim, Judith “fincou pé” e preservou o axé. O Ici Mimó teve suas portas abertas para o público somente em 1917, após um fato que repercutiu na sociedade cachoeirana e ganhou até matéria no jornal “A Ordem”, um dos mais lidos na época. Mãe Judith, na ocasião da abertura do terreiro, mandou distribuir convites para os festejos que iam acontecer, e acabou causando uma revolta da elite, que cobrou providências da polícia.

 

Mãe Judith, porém, não se intimidou. Ao contrário, buscou criar alianças com pessoas influentes, econômica e politicamente. Aproveitava então para levar a público as discussões em pauta naquele momento sobre a perseguição aos praticantes de cultos afro-brasileiros por parte da imprensa, da polícia e da elite em geral. Não foram poucos os episódios em que ela se mostrou uma voz ativa e de resistência em defesa do povo negro, da sua cultura, identidade e fé. Foi assim até a sua morte, em 1940.

 

Depois dela, quem assumiu a direção do terreiro foi o seu sobrinho Marcos, e em seguida, Mãe Chica, Maria Guilhermina, Antonio Gomes da Silva, mais conhecido

como Candola e atualmente, Antônio dos Santos Silva, filho de Candola, que ocupa o posto desde 1998.

 

Junto com outros nove terreiros de Cachoeira e São Félix, o Ici Mimó Aganju Didê foi registrado como Patrimônio Imaterial do Estado, conforme a lei 8.895 de 2003 e do Decreto10.039 de 2006, que garantem a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial.

 

Referência:

 

Terreiros de Candomblé de Cachoeira e São Félix (Coleção Cadernos do IPAC)

Leia também: http://www.ipac.ba.gov.br/publicacoes-para-download/cadernos

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