CACHOEIRA

Cidade Heróica e Monumento Nacional

Por Fábio Batista Pereira*

Em 1971, Cachoeira recebeu o título de Cidade Monumento Nacional em reconhecimento ao seu valioso conjunto arquitetônico. Lugar de tradição e efervescente cultura popular, nesses séculos de história, Cachoeira se consolidou como uma espécie de Porto Cultural do Recôncavo Baiano a transportar quem a visite em uma verdadeira viagem ao longo do tempo através dos velhos trilhos da estrada de ferro, pelas ruas antigas e em seus casarios e edificações.

            Vamos juntos andar por esses trilhos e ruas…

A Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira, fundada em 1698, no Recôncavo Baiano desempenhou importante papel ao longo da História do Brasil Colônia e Império, quando a riqueza proveniente da lavoura da cana-de-açúcar, da produção do tabaco e do seu porto fluvial – cujo movimento era superado apenas pela zona portuária de Salvador – lhe garantiu um lugar de destaque.

            Em toda Kirimurê – nome dado pelos Tupinambás a Baia de Todos os Santos – foram travadas inúmeras batalhas durante o processo de conquista e exploração do território. A Civilização Tupinambá resistiu ao domínio português e, embora tenha pagado um alto preço pela sua resistência sendo completamente dizimada na região, será sempre necessário lembrar a sua história como forma de manter vivas as lutas dos povos indígenas atualizadas no presente. Nesse sentido, em Catarina Paraguaçu está guardado um símbolo de ancestralidade, mas além dessa simbologia as mais de 300 etnias que lutam pelos seus direitos em diferentes lugares do território brasileiro, hodiernamente.

A 25 de junho de 1822, quando as disputas entre a Coroa Portuguesa e a colônia brasileira avançavam para um futuro incerto, a Casa de Câmara e Cadeia da então Vila de Nossa Senhora da Cachoeira antecipou o Grito do Ipiranga (7 de setembro de 1822) ao reconhecer D. Pedro I, Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil o que significou a ruptura imediata com as Cortes Portuguesas.

            Tamanha ousadia não poderia passar despercebida pelas autoridades portuguesas que logo enviaram uma canhoneira (espécie de embarcação de guerra) para proteger os interesses lusitanos na vila mais próspera da Província da Bahia. O conflito tornara-se inevitável e durou até o dia 2 de julho de 1823, com a deposição das armas pelos portugueses: Cachoeira foi sede do governo[1] provisório durante os meses de conflito contribuindo com alimento, armas e vidas conforme exaltado no hino da cidade:

[1] A partir do ano de 2007 através da Lei Estadual 10695, Cachoeira torna-se simbolicamente a  capital do Estado da Bahia, no dia 25 de junho em homenagem e reconhecimento ao importante papel desempenhado no curso da Independência do Brasil.

“Revivei, terra heroica e fremente!

Que com sangue, denodo e vanglória,

Escrevestes teu nome eloquente

Nos anais de ouro supremo da história

Exaltemos nossa terra, sempre forte e varonil,

Legionária de uma guerra que engrandecera o Brasil”[1].

[1] Letra por Sabino de Campos – Música Maestro Manoel Tranqüilino Bastos.

A 13 de Março de 1837, foi elevada à categoria de cidade com o título de Cidade Heróica,  constituindo, assim, uma significativa rede urbana ao longo do século XIX e primeira metade do século XX como escreveu o grande geógrafo Milton Santos: “isso dava a Cachoeira um grande raio de influência confirmando assim, a importância com que já contava antes da ferrovia (…) como a principal sede de partida e chegada do maior tráfego comercial da Província da Bahia.[1]

 Desde o início da colonização, o trabalho escravo se impôs e consumiu a vida de milhões de pessoas. Assim, o “colono preto” deve ser entendido como um fator de civilização como sugere Manuel Quirino em importante estudo sobre o tema. Os versos de Castro Alves, poeta nascido no Recôncavo Baiano, denunciam essas agruras:

*Graduação em História-UEFS. Mestrado em História-UFRB.[1] SANTOS, Milton. A Rede Urbana do Recôncavo.Salvador, Imprensa Oficial da Bahia, 1959.p.77

Negras mulheres, suspendendo às tetas

Magras crianças, cujas bocas pretas

Rega o sangue das mães:

Outras moças, mas nuas e espantadas,

No turbilhão de espectros arrastadas,

Em ânsia e mágoa vãs!

Por volta do século XVIII, a população de Santiago do Iguape era composta de 3043 habitantes distribuída da seguinte forma:

Paróquia

Fundação

Homens

Livres

Mulheres

Livres

Criados

Escravos

Total

Engenhos

Santiago de Iguape

1563

362

430

39

2212

3043

16

(Fonte: SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial.p.87)

 

 Nesse contexto do trabalho escravo, houve resistência e assim se constituíram as comunidades remanescentes de quilombo da Bacia do Iguape: Kaonge, Kalolé, Kaimbongo Velho, Kalolé, Dendê, Imbiara, Engenho da Ponte, Engenho da Praia, Engenho da Vitória, Tombo, Engenho Novo, Engenho da Cruz, Brejo. Nas lutas abolicionistas se destacou Tranquilo Bastos, o semeador de filarmônicas: Salve a Lira Ceciliana, a Minerva Cachoeirana e a Filarmônica 25 de Junho.

Atualmente, como polo turístico com um rico calendário movimentado pelas  tradicionais festas populares e eventos culturais como a Festa de Iemanjá,  o São João, o São Pedro do Iguape, Festa da Boa Morte,  Festa da Ajuda, FLICA – Festa Literária Internacional; os ares de cidade universitária, em decorrência da Universidade Federal do Recôncavo Baiano  e  da Faculdade Adventista da Bahia (Distrito de Capoeiruçu); com a presença de equipamentos culturais importantes como o Museu da Ordem Terceira do Carmo, O Museu do IPHAN, a Fundação Hansen Bahia, o Cine Theatro Cachoeirano, a Casa Paulo Dias Adorno, a Casa do Samba de D. Dalva, os seus artistas, a culinária e a cultura imanente do seu povo faz de Cachoeira um Porto Cultural do Recôncavo Baiano.

[1] A partir do ano de 2007 através da Lei Estadual 10695, Cachoeira torna-se simbolicamente a  capital do Estado da Bahia, no dia 25 de junho em homenagem e reconhecimento ao importante papel desempenhado no curso da Independência do Brasil.

[1] Letra por Sabino de Campos – Música Maestro Manoel Tranqüilino Bastos.

*Graduação em História-UEFS. Mestrado em História-UFRB.[1] SANTOS, Milton. A Rede Urbana do Recôncavo.Salvador, Imprensa Oficial da Bahia, 1959.p.77

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