Igreja de Nossa Senhora do Sagrado Coração do Monte Formoso – Igreja do Rosarinho

A igreja de nome extenso é mais conhecida como Igreja do Rosarinho ou ainda, Igreja dos Nagôs. Construída em 1846, é considerada um centro de resistência do povo negro, que ainda era impedido de participar dos cultos católicos em outros templos católicos. Os responsáveis pela sua construção também fundaram um dos primeiros terreiros de candomblé de que se tem notícia na região. Em uma vista panorâmica da cidade é fácil encontrá-la no topo da Ladeira do Rosarinho, um dos bairros com a maior presença negra desde o início de seu povoamento.

Histórico:

 

As irmandades religiosas eram importantes núcleos de associação, e por muitas vezes norteavam a vida social nos séculos passados. Boa parte dos eventos que faziam parte do calendário festivo estavam relacionados às atividades católicas. De acordo com o pesquisador Ricardo Amorim, “as irmandades se tornaram palcos de intensa concorrência popular. Era o espaço em que se congregava a fé de diferentes modos. As festas eram suntuosas, bem como os funerais”. A sociedade baiana enxergava aí a oportunidade de demonstrar sua devoção aos santos e santas, além de realizar ações de caridade.

 

Essas atividades, no entanto, não eram permitidas à população negra. Negros libertos e escravizados deveriam ser convertidos ao catolicismo, deixando de professar sua religião de origem, mas eram proibidos de entrar nas igrejas. Porém, isso não os impediu de criar suas próprias irmandades. Nelas, a ideia de coletividade e ajuda mútua  tinha um significado ainda maior, pois várias delas também tinham como objetivo a libertação de irmãos escravizados. Além disso, essas irmandades representavam resistência ao regime escravista e os irmãos podiam compartilhar entre si memórias, tradições e culturas das suas nações de origem. Por isso, em 1846, homens e mulheres negros libertos construíram a Igreja de Nossa Senhora do Sagrado Coração do Monte Formoso, que depois também ficou conhecida como Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. A escolha do local não foi ao acaso. O Monte Formoso, que mais tarde passou a ser chamado de Alto do Rosarinho, era um dos principais locais da Vila de Cachoeira onde os negros libertos fixavam moradia, tornando-se assim uma localidade com identidade essencialmente negra, afastada da elite branca.

 

Lá, os irmãos e irmãs realizavam cultos à Nossa Senhora e a outros santos católicos, mas não deixavam de reverenciar também os orixás e inkisis. Nos fundos daquela igreja foi fundado um dos primeiros terreiros de candomblé da região, e boa parte das irmãs associadas passaram a integrar posteriormente a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, uma das primeiras formadas unicamente por mulheres negras.

 

Com o passar dos anos, a irmandade foi perdendo força e a igreja teve sua estrutura comprometida, ficando fechada por muito tempo. Somente em 2006 foi revitalizada através do Programa Monumenta, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). No interior da igreja já não havia vestígios de altar, elementos decorativos ou qualquer tipo de adorno. Foram necessárias ações de estabilização da edificação, e a restauração total do altar-mor, sacristia, a nave, o ossuário, a assembleia de cardeais e a sala do capítulo. Com as obras de restauro, foram colocadas também rampas de acesso em todos os espaços da igreja, para permitir o acesso de portadores de necessidades especiais.

 

Referências:

 

AMORIM, Rodrigo do Nascimento. Práticas sociais e religiosas em Cachoeira entre os anos de 1840-1883: Um estudo sobre a Irmandade do Bom Jesus da Paciência. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2016.

Leia também: https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/23304/1/DISSERTA%C3%87%C3%83O%20RODRIGO%20AMORIM.pdf

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